O Samba dá visibilidade a ela: Carolynne Mansory’s se destaca como a musa popular do carnaval

No dia da Visibilidade Trans, o Rio 360 conversa com uma das figuras atuais mais emblemáticas do carnaval carioca.

Ela é uma mulher trans performática que ama o maior espetáculo de Terra. Carolynne Mansory’s é a personagem do carnaval que tem viralizado nas redes sociais com coreografias e com a sua entrega nos ensaios de quadra e de rua das escolas que desfila. Ela é componente assídua da Beija-flor de Nilópolis, Acadêmicos do Grande Rio e Unidos de Padre Miguel, mas também pode ser considerada íntima de todo apaixonado pelo carnaval da Sapucaí.

No dia da Visibilidade Trans, o Rio 360 conversa com esta estrela da folia que diariamente enfrenta as questões vivenciadas por toda classe trans do Brasil. Literalmente sambando em cima das dificuldades, a musa fala um pouco de si e cobra mais dignidade, oportunidades e respeito a todas e todos os trans que ainda vivem em um cenário de discriminação e violência

Rio360: Hoje é o dia da Visibilidade Trans. Você, como mulher trans, ainda acha que o Brasil precisa dar mais atenção a classe?

Carolynne: Com certeza! O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Ainda há muita discriminação nos lugares públicos que nós trans vamos, como shopping, banco… vários lugares. A violência persiste e as autoridades não tomam medidas para combater isso e, quando fazem algo, parece ser medidas que servem apenas para ‘tapar o sol com a peneira’, pois nada vai para frente. As pessoas trans precisam de mais oportunidades. Se tivéssemos mais oportunidades de emprego, por exemplo, muita coisa poderia ser diferente. É lamentável, mas muitas mulheres trans são obrigadas a se prostituir para sobreviver, pois a discriminação já começa dentro de casa, nas famílias. Algumas conseguem empregos formais, como eu, mas não são todas. Muitas, infelizmente, só encontram essa saída_ .

Rio 360: Na sua opinião, quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelas pessoas trans no Brasil?

Carolynne: Sem dúvida, a violência. A transfobia é crime, mas muita gente ignora. Outras questões são: a rejeição familiar, a discriminação das crianças ainda nas escolas que impulsiona a aumento da evasão escolar, a dificuldade no acesso à saúde, pois ainda há discriminação nos postos, principalmente se a mulher trans (ou homem trans) já tiver mudado a identidade. Tudo beirando sempre ao preconceito. São necessárias mais políticas públicas, mais leis, que olhem pela gente, pois a exclusão ainda é muito grande._

Rio 360: Você é moradora de Duque de Caxias e já recebeu uma Moção de Aplausos na Câmara Municipal. Fale um pouco sobre esta honraria.
Carolynne: Sim. Sou moradora de Duque de Caxias e fui indicada para receber essa honraria por ser uma das mulheres trans do meu município que possui um trabalho formal e que luta pelos direitos de todas as trans. Hoje, eu trabalho numa escola municipal, onde sou extremamente respeitada e muito bem-tratada por todos os meus colegas, direção, gestão, sem exceção. Agradeço muito a parceria e o carinho da minha dirigente, Kátia, da minha diretora, Cristiane Barreto, que sempre foi magnífica comigo… ou seja, a honraria veio porque eles me enxergaram como uma mulher trans que luta pela classe e que batalha formalmente no seu dia a dia. Fiquei muito feliz pelo reconhecimento e me sinto muito lisonjeada por ser considera exemplo para as outras meninas.

Rio 360: Você é uma personalidade do samba. Desfila em três escolas. O carnaval é acolhedor com as pessoas trans? Como você se sente perante os sambistas?
Carolynne: No carnaval há espaço para todos que amam a festa. Graças a Deus, eu sou muito respeitada no carnaval, sou muito bem-tratada, as pessoas do carnaval gostam muito de mim. Hoje faço parte de três agremiações: Beija-flor, Grande Rio e Unidos de Padre Miguel, mas já passei pela Em cima da Hora, Vigário Geral… Por todas as escolas que passei sempre fui muito bem-tratada. Existe discriminação na sociedade, mas o carnaval acolhe. A comunidade gay é bem representada na festa, pois temos grandes profissionais, como coreógrafos, carnavalescos, enredistas, estudiosos, diretores que nos representam muito bem. No carnaval, não só os trans como toda comunidade LGBTQIAPN+ tem espaço para mostrar a sua arte. Um exemplo disso são as minhas coreografias com os sambas da Beija-flor que viralizaram. As pessoas apoiam, gostam, nos incentivam e eu sou muito grata e feliz com isso.

Rio 360: Qual o conselho que você daria as pessoas que querem transicionar como você?*
Carolynne: Não existe uma receita, como se fosse de bolo, para todos que queiram transicionar. Em primeiro lugar, precisamos respeitar o nosso tempo, o nosso corpo, isso é fundamental. Ninguém ‘vira’ e decide nada de um dia para o outro. Trata-se de um caminho a percorrer, uma jornada profunda que é única para cada pessoa. É necessário aprender, se alinhar e entender o que realmente você é e sente. Não existe uma fórmula… É um exercício de autoconhecimento. Acompanhamento médico e psicológico são fundamentais._

Rio 360: Neste dia da visibilidade trans, qual recado você daria as autoridades?*
Carolynne: Eu peço que eles apresentem mais políticas públicas que orientem e defendam as pessoas trans e todo comunidade LGBTQIAPN+. Nós precisamos de proteção e atenção. Além disso, o Estado precisa assegurar os nossos direitos, pois nós possuímos direitos igual como qualquer outro cidadão que paga seus impostos. Na verdade, nós só queremos oportunidades e respeito para vivermos com dignidade e sem exclusão._

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