Quem observa o calendário eleitoral e projeta 2026 como um horizonte distante está perdendo o “timing” do real xadrez político fluminense. No Rio de Janeiro, a sucessão estadual não é apenas um evento futuro; é um processo de engenharia pesada que já está em plena execução nos 92 municípios do estado. O tabuleiro está montado, as peças principais se movem com agressividade e o recado é claro: a disputa pelo Palácio Guanabara começou.
A Estratégia de Paes: O Avanço sobre a Baixada e o Centro-Direita
Eduardo Paes (PSD) joga com o regulamento debaixo do braço e o favoritismo das pesquisas no bolso. Mas o prefeito da capital sabe que o Rio não se ganha apenas no Aterro do Flamengo. Sua movimentação mais estratégica até aqui foi a “ponte” construída com o MDB e a poderosa família Reis. Ao sinalizar Jane Reis como sua vice, Paes não apenas busca os votos de Duque de Caxias e o cinturão da Baixada Fluminense; ele envia um recado direto ao eleitorado de centro-direita.
Essa manobra tem um efeito colateral calculado: o distanciamento da imagem de uma chapa puramente “lulista”. Ao priorizar o MDB e os Reis, Paes empurra o PT de André Ceciliano para uma posição de apoio tático ou palanque federal, esvaziando a tese de uma vice petista que poderia ser usada como munição pela oposição bolsonarista.
A Resposta do Governo: Douglas Ruas e a “Superchapa” da Continuidade
O grupo que orbita o atual governador Cláudio Castro e o clã Bolsonaro não assiste ao movimento de Paes passivamente. A resposta veio com a consolidação de uma “superchapa” que une PL, União Brasil e Progressistas (PP). O nome escolhido para a cabeça de chapa é Douglas Ruas (PL). Com DNA político em São Gonçalo, um dos maiores colégios eleitorais do estado, Ruas personifica a tentativa de continuidade do projeto atual.
A amarração é robusta: o PP de Dr. Luizinho entra no jogo indicando Rogério Lisboa (prefeito de Nova Iguaçu) para a vice, enquanto o União Brasil, com a força de Márcio Canella, garante a capilaridade necessária na Alerj e nas prefeituras do interior. É uma estrutura desenhada para contrapor o favoritismo de Paes com máquina pública e presença territorial massiva.
Alerj: O Primeiro Round será indireto
Um detalhe que os bastidores tratam como prioridade zero é a provável desincompatibilização de Cláudio Castro para disputar o Senado. Isso abriria caminho para uma eleição indireta na Assembleia Legislativa (Alerj) para um mandato-tampão. Esse será o primeiro grande teste de força. Quem controlar o governo nesse período de transição terá as chaves do cofre e a caneta para nomeações estratégicas, entrando em outubro de 2026 com uma vantagem competitiva inegável.
O Interior como Fiel da Balança
Para além da Região Metropolitana, o interior fluminense vive sua própria ebulição. O Norte Fluminense, liderado por Wladimir Garotinho (PP) em Campos, tornou-se objeto de desejo de ambos os lados. Paes tenta atrair o clã Garotinho para seu arco de alianças, visando isolar Rodrigo Bacellar (União Brasil), presidente da Alerj e principal expoente da direita no interior.
Enquanto isso, regiões como a Serrana e as Baixadas Litorâneas consolidam-se como redutos conservadores, onde o PL de nomes como Dr. Serginho e Giselle Monteiro mantém hegemonia, forçando qualquer candidato majoritário a negociar palanques cidade por cidade.
O Que Esperar?
A eleição de 2026 no Rio de Janeiro será decidida no detalhe das composições. Não se trata apenas de ideologia, mas de logística eleitoral. De um lado, a tentativa de Paes de construir uma “frente ampla” que neutralize a rejeição ao PT. Do outro, a aposta da direita em nomes novos com forte apoio de máquinas municipais e parlamentares.
O tom das conversas mudou. O pragmatismo venceu a espera. Se você quer saber quem será o próximo governador, não olhe apenas para as pesquisas de opinião; olhe para quem está apertando a mão de quem nas prefeituras da Baixada, do Norte e do Sul Fluminense.
A eleição começou. E o Rio, como sempre, não é para amadores.